Em 2016 o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte – FESTCURTASBH chega a 18ª edição, atingindo a sua maioridade com uma programação consistente, resultado de uma curadoria especial e uma seleção primorosa, fruto de um trabalho intenso de apuração dos mais de 2500 filmes inscritos de todas as partes do mundo. Serão exibidas 136 obras, divididas nas mostras competitivas Internacional, Brasil, Minas Gerais e nas mostras paralelas Movimentos de Mundo, Topologias Imaginárias, Animação, Maldita, Juventudes e Infantil.

As mostras competitivas, programas tradicionais do festival, contam com 21 filmes estrangeiros, provenientes de 16 países, englobados na competição internacional. Apresentam também 20 obras nacionais, de 10 estados diferentes, na mostra Brasil. Destacamos, por fim, a mostra Minas, com 11 curtas concorrendo ao melhor filme do nosso estado.

As mostras paralelas mantêm a tradição de exibir a já consolidada Movimentos de Mundo, que, ano após ano, apresenta filmes que ressaltam aspectos da política e da sociedade contemporânea. Em 2016 o comitê de seleção se deparou com uma enorme variedade de filmes que evidenciam a capacidade de atrair o debate e exaltar questões polêmicas, norteando a opção de enfocar essas inquietações na tela. A mostra Juventudes cresceu este ano e se destaca com a seleção de 18 curtas-metragens de várias partes do mundo. Como bem explica um dos membros do comitê de seleção, o crítico de cinema Marcelo Miranda, o que aparece com força nessa mostra é que “os jovens não seguem ’agendas’ pré-definidas nem estão interessados em se adequar a cânones ou guetos nos quais uma sociedade controladora tende a inseri-los. O que os move são desejos e latências muitas vezes ainda em desequilíbrio”.

Em diálogo com a efervescência das obras apresentadas na mostra Movimentos de Mundo, a programação convidou o cineasta Luiz Pretti para realizar a curadoria de uma sessão especial de filmes do Coletivo Sírio Abounaddara. Desde que se intensificaram os esforços na Síria em 2011, pouco depois do início dos protestos contra o líder Bashar Assad, o Abounaddara publicou mais de 300 vídeos — ou um quase toda sexta-feira, com legendas em inglês e francês. Durante a guerra civil, os cineastas mantiveram suas identidades em segredo, em parte para que qualquer pessoa afetada pela turbulência pudesse participar. Eles não revelam o número de pessoas envolvidas, mas a maioria são sírios.

A ponto de enviarmos esse catálogo para impressão, no entanto, o coletivo entrou em contato conosco solicitando a retirada da sessão do festival. Em respeito à turbulenta situação vivida na Síria hoje, após a intensificação da ofensiva armada do ocidente sobre o território Sírio dias depois do atentado ocorrido em Nice, na França, no dia 14 de julho (comemoração da Queda da Bastilha), resolvemos retirar a sessão especial programada para acontecer no 18º FESTCURTASBH. Decisão tomada com pesar, mas com total compreensão do pedido diante do contexto recente.

O encontro da comissão de seleção com a diversidade de filmes inscritos para essa edição do festival permitiu a criação de uma nova mostra paralela, intitulada Topologias Imaginárias, que surgiu a partir do grande volume de filmes que apontavam a imagem como tema, como substância elementar. Serão apresentadas obras que se constituem como exercício de concepção dos autores, discutindo a própria representação da imagem e da memória.

Como discussão central, o 18º FESTCURTASBH evidencia um processo contemporâneo de vulnerabilidade das obras audiovisuais, apresentando em sua sessão de abertura a performance Mesmo o silêncio é causa de tempestade, da dupla espanhola Luís Macías e Adriana Vila, do CraterCollective de Barcelona, que utiliza vários projetores 16 mm em projeção simultânea com som ótico e som direto. Lançando mão de processos experimentais e analógicos de criação, a dupla se dedica às improvisações sobre a intermitência tempo/luz e espaço/som. Na recuperação de técnicas analógicas, caseiras e experimentais, assim como de formatos obsoletos, o trabalho busca a valorização da materialidade e da imprevisibilidade nos processos de criação.

A dupla também realizará uma oficina intitulada Revelação alternativa 16 mm, que irá trabalhar a implementação de vários processos de revelação de filmes com a utilização de produtos naturais alternativos. Ainda, um filme coletivo será realizado em 16mm para se experimentar as imagens impressas nas películas. A oficina será realizada no Arquivo Público Mineiro, a partir de uma importante integração entre o Cine Humberto Mauro, principal espaço exibidor de conteúdos em película no Estado de Minas Gerais, e o Arquivo Público Mineiro, da Secretaria de Estado de Cultura, que se dedica ao recolhimento, à guarda, à gestão, à preservação e ao acesso à memória cinematográfica de Minas Gerais.

Essa parceria histórica abrange ainda a catalogação e digitalização de todo o acervo das edições anteriores do FESTCURTASBH, que em breve será disponibilizado para apreciação de pesquisadores e do público em geral.

Será realizada ainda outra oficina em parceria com o CTAV: Fundamentos de Som para Imagem, que introduz os fundamentos técnicos e tecnológicos envolvidos no processo de sonorização das produções audiovisuais. Desta forma, o festival reforça o seu caráter de formação.

Finalmente, o grande destaque da programação desta edição será a Mostra Especial Retrospectiva Chantal Akerman, dedicada à cineasta belga falecida em outubro do ano passado. Grande parte das obras apresentadas será composta de filmes raros de curta e média duração, em um trabalho de curadoria que se lançou às bordas de sua filmografia, trazendo ao público obras pouco conhecidas da cineasta.  Pioneira do cinema experimental, Chantal era considerada uma das grandes realizadoras contemporâneas que, pela sua singularidade, revolucionou alguns segmentos do cinema internacional. Conectado à retrospectiva, será realizado um seminário sobre a cineasta, conduzido pela ensaísta e pesquisadora de cinema Carla Maia, que atua também como professora, curadora e produtora.

Para encerrar a mostra especial dedicada à Chantal e a 18ª edição do FESTCURTASBH, o longa inédito no Brasil No home movie (2015), último filme da cineasta, fecha com chave de ouro essa programação pensada e realizada com toda a dedicação, a fim de possibilitar a fruição de uma variedade substancial de filmes no formato curta-metragem, instigando um interesse cada vez maior do público pelas potencialidades estéticas do formato.

É com muita satisfação que compartilhamos essa efervescente seleção de obras, reafirmando a posição do FESTCURTASBH em um lugar de extrema importância no cenário audiovisual brasileiro.

 

Philipe Ratton
Coordenador Geral

Carolina Gontijo
Coordenadora de Programação

Bruno Hilário
Assessor