Mostra Movimentos de Mundo

Por Gustavo Jardim

O maior desafio de se organizar a mostra Movimentos de Mundo é perceber e salientar, por um conjunto de filmes, aspectos da política e da sociedade que se reconfiguram na linguagem cinematográfica. A cada ano do festival, para além dos temas mais recorrentes provindos de questões contemporâneas, alguns filmes fazem sobressair uma nova forma de olhar e pensar as permanências e as transformações do mundo que se inscrevem no fazer fílmico, deixando um rastro artístico para a compreensão filosófica da vida em sociedade. As atualidades chamam atenção pela capacidade de atrair o debate e gerar o interesse do público. O cuidado que procuramos ter na escolha das obras apresentadas está ligado à capacidade do atual se tornar um trampolim para outras temporalidades que convivem e redimensionam as questões que abordam.

Alguns dos filmes se apresentam no eixo do próprio acontecimento e, feitos a partir da inserção do cineasta em seu movimento, dão uma medida instigante do diálogo entre a câmera e o político; nos colocam frente a uma disputa simbólica dos territórios. É o caso de O sniper de Kobani e Lição de patriotismo, filmes que se dão no calor da experiência, revelando uma espécie de sensação que escapa de uma simples explicação para os fatos. A vida solitária de um justiceiro na Síria e uma apresentação infantil de músicas patrióticas para saudar a Polônia são situações que nos inserem em um contexto no qual a própria câmera se torna personagem de fatos cotidianos – ligados a questões amplas, entre a guerra e a ideia de desenvolvimento – forjando a perspectiva a partir de uma singularidade do olhar, importante para a leitura desses eventos.

Como de costume nesta mostra, que pensa também em fronteiras e fluxos no território cinematográfico, a locomoção no espaço e a experiência cruzada entre povos distintos são um aspecto marcante que nos chama atenção. Estão reveladas por câmeras e montagens sobrepostas, como em Aquele que come crianças, de Ben Russel, cineasta que também ocupa lugar na mostra Competitiva; ou em propostas mais tradicionais, todavia não menos abertas para o estranhamento e a quebra temporal, como Reilu Peli, filme que joga com intolerância e prazer no encontro com a diferença. Saído dos campos da Tanzânia para um torneio de futebol feminino na Finlândia, descobrimos nuances de uma compreensão de mundo que interpela a direção do documentário e certamente o espectador desse filme, que se dá nos dois campos de uma partida humanitária entre África e Europa.

Os curtas-metragens de ficção também se configuram como espaço potente de conversas e inserções do cinema na vida e na política, flertam com a câmera documental e trazem um frescor na leitura do cotidiano. Em obras como Raíssa, que vem da Moldávia, ou Amazonas de procedência colombiana, colocam-se questões sobre o pertencimento humano e social com uma câmera realista e provocadora de suspensão e afetividade compartilhada com os personagens, nos deixando em dúvida mesmo após a descoberta de um mistério. O mundo se resolve em perguntas bem colocadas, capazes de articular conversas para além da ficção que se apresenta.

Por outro lado – ainda explorando a ficção – em Sadhu em Bombay, a contaminação do documentário é mais expressiva e gera um personagem ambíguo entre o filme e a verdade. O diretor Kabir Mehta aproxima a criação de um personagem e a construção de um filme narrativo que se expõe em sua fabricação, margeando os limites e a potência do gênero. O retorno dado por esta combinação é controverso e colabora com as questões que o filme explora no universo indiano. A mostra MOV procura confundir algumas linhas mais claras na compreensão daquilo que é dado como certo no político e na estética, abrindo espaços para o dissenso e a provocação de um real que se impõe com a vida nos filmes; cabe aí ressaltar uma dimensão do acontecimento, mesmo no universo da ficção.

Os filmes criam em torno de si uma aura viva que se sustenta em suas proposições de olhar, criando para si um universo em expansão, que se alonga no encontro com o espectador e com a crítica. No caso dessas obras, essa circunstância é exacerbada pela característica do compromisso social que as engendra. Assim vemos a voz narrativa tomar emprestada a criação do mundo em Paradisus, filme de perícia fotográfica e dispositivo controlado, no qual os elementos se encaixam como que por força divina de criação, jogando uma estranha luz e gerando uma crítica atroz à fundação da humanidade. Uma irônica e sensível tradução do Gênesis ao modo poético, com beleza e destruição.

Nesse sentido mais experimental, filmes como Campo de possibilidades ou Alphonsine deixam caminhos abertos que desembocam em nossa própria experiência de mundo, mesmo partindo de particularidades gritantes, mas que ecoam em nosso olhar de alguma forma, seja pela composição onírica do espaço urbano como se dá no primeiro caso, seja na confrontação com um personagem aparentemente impenetrável, cuja solidão sondamos de longe, como animais a sua espreita.

O conjunto dos filmes parece nos corporificar em conflitos que vão do singular ao planetário, dentro de uma mesma obra. Em Strana Udehe, o cinema etnográfico acerta na incursão mediada pela poética e sensibilidade da construção coletiva de visões de mundo do povo Udehe. O diretor Ivan Golovnev constrói em colaboração direta com os nativos um espectro que insere natureza e tradição no olhar da câmera para o cotidiano desse povo, habitantes do extremo oriente russo. Em contraste, para finalizar nossa apresentação, o filme I don’t wanna sleep with you, I just want to make you hard, deixa um convite ao obsceno – aquilo que está atrás da cena – em um olhar que articula o ingênuo e o sexual em uma proposição madura de cinema em casas de acompanhantes no Japão. Homens e mulheres em embaraços de uma identidade que se põe em jogo de sedução.

Fica dado ao espectador o convite à viagem por um mundo cinematográfico que expande sem fronteiras, por limites que nos incluem e nos convocam à contemplação e conversa.

MOV 1 75’

> 8, segunda, 17h30 – Cine Humberto Mauro

> 10, quarta, 18h – Juvenal Dias

 

MOV 2 75’

> 9, terça, 16h – Cine Humberto Mauro

> 12, sexta, 18h – Juvenal Dias

 

MOV 3 77’

> 13, sábado, 16h – Cine Humberto Mauro

> 14, domingo, 16h – Juvenal Dias