SESSÃO MALDITA

Por Vitor Miranda

A sessão Maldita do FESTCURTASBH traz filmes considerados malditos nas mais diferentes acepções da palavra. Uma mulher que perambula por um ambiente claustrofóbico, um clipe musical com humor apelativo: várias características podem levar um filme a ser enquadrado nessa sessão tão diversa.

O filósofo Nöell Carroll, no livro A Filosofia do Horror, ou paradoxos do Coração busca uma explicação para o fascínio das pessoas pelos filmes de horror e elabora a pergunta: por que nos sentimos atraídos por obras cujo objetivo é nos causar medo ou asco? Talvez o que una a escolha dos cinco curtas-metragens de várias partes do mundo que compõem a sessão Maldita esse ano sejam essas cenas que causam uma relativa curiosidade e um impacto, muitas vezes por meio do choque e de estímulos visuais. Temos o desejo de conhecer e experimentar o absurdo com uma certa segurança, rir de tabus da sociedade para, de maneira silenciosa, expressarmos impulsos socialmente proibidos ou reprimidos, relacionados ao sexo e à violência. Por isso, procuramos essas obras trash que nos envolvem com o objetivo de nos fazer vivenciar algo que seria impossível na vida real. Mas não se trata de uma sessão depressiva ou triste. Pelo contrário, a própria linguagem de parte dos filmes nos lembra de que aquilo não é para ser levado tão a sério.

E é em uma estética sofisticada que se apoia o primeiro curta da sessão, o espanhol Disco Inferno, dirigido pela estreante Alice Waddington. Apesar de apresentar uma figura demoníaca que decapita mulheres e coloca moldes dourados de cabeças de carneiro no lugar das cabeças femininas, o filme tem mais elementos de fábula do que necessariamente de terror. A fotografia em preto e branco e a sensualidade da personagem principal evocam o clássico conto policial Judex, de Louis Feuillade, refilmado posteriormente por George Franju.

Com uma ambiência sonora sufocante, The Last Sentence, do grupo coreano Moojin Brothers, usa a experimentação cinematográfica para refletir sobre questões trabalhistas e de direitos humanos. Acompanhamos um fragmento da maçante rotina de uma mulher que trabalha em túneis claustrofóbicos, com sons perturbadores e repetitivos, até que, após um acidente misterioso, encontra-se diante de signos existencialistas.

Existencialismo que aflora também no próximo curta da sessão. Na passagem bíblica de Eclesiastes 1:9, Salomão escreve sobre a monotonia de viver e o vazio da natureza cíclica da vida humana na Terra e, dessa passagem, nasce a expressão “não há nada de novo sob o sol”. Essa é a tradução literal do nome do curta-metragem Hich Chiz Zireh Aaftab Tazeh Nist, dirigido pela iraniana Faezeh Alavi. O nome parece ser uma ironia direcionada aos temas evocados pela cineasta no seu anárquico filme-pesadelo: estupro, aborto, execuções filmadas, imperialismo militar e ameaças de morte.

É também trabalhando com as possibilidades oníricas que Gabriel Arantes protagoniza seu próprio filme, Freud und Friends, a mais nova comédia irreverente do português já consagrado no terreno dos curtas-metragens. Um mockumentary hilário, que parodia ficções científicas à Woody Allen com uma estética artificial e uma narrativa delirante e caricatural, o filme evoca o subconsciente e se torna um triunfo ácido da comédia.

“Uma pornoaventura lo-fi? Um John Waters suecado? Uma fita pseudopunk ou uma fita punk pseudointelectual?”: essa é a descrição encontrada no site da produtora de Jardim das Delícias, que encerra a sessão de forma bem musical e desbundada. No clipe gravado em VHS para o projeto musical TucA, vemos um duelo bizarro: uma espécie de vagina vence o “abusador do parque”, ambos interpretados por Dellani Lima.

Talvez esse seja o irreverente recado final dessa sessão que, para além dos elementos malditos, apresenta uma forte presença feminina nos filmes, seja através de uma Mefistófeles mulher, uma asiática que sofre abusos laborais e até de uma diretora iraniana filmando um sonho de vingança contra seu estuprador.

MAL 63’

> 6, sábado, 23h – Cine Humberto Mauro

> 12, sexta, 23h30 – Cine Humberto Mauro