Topologias Imaginárias

Por Janaína Patrocínio

Inicialmente, a ideia para esta mostra surgiu a partir do volume significativo de filmes que trabalham com imagens de arquivo, mas se ampliou e tomou forma com a escolha de trabalhos que instigam reflexões acerca da potência da imagem. Nossos olhares voltaram-se para filmes nos quais a imagem é tema, matéria e pensamento. Obras que se constituem com um exercício de imaginação dos autores explícito pela forma como se apropriam de imagens, atribuindo sentidos, estabelecendo conexões e discutindo a própria representação.

Esses filmes tencionam a certeza que fecha o circuito do visível no legível, agenciam o olhar evidenciando a ambiguidade das imagens que se moldam às suas demandas simbólicas e narrativas. Colocam em discussão como o olhar dos realizadores e o de quem assiste circunscreve o sentido das imagens no limite da nossa imaginação.

Em LUNIÈRE FOSSILES, essa reflexão sobre a subjetividade da imagem ganha forma poética numa jornada rumo ao encontro de uma luz fóssil, do passado. Essa luz materializa-se apenas sobre a pele da personagem evidenciando-a como catalisadora do sentido dessas imagens, suas memórias. Aqui, a imagem sem o anteparo de um olhar, de um sujeito, não existe, é apenas luz.

REMAINS FROM THE DESERT reafirma essa experiência subjetiva quando convoca nosso olhar para uma memória implícita nas imagens, jogando com a relação do que está circunscrito na tela e aquilo que não é visível. Constrói uma rede de elementos, visuais e sonoros, na qual a escassez do registro visual do que é narrado não nos impede de acessar as imagens em nossa mente. Assim, o filme toma forma no diálogo com a imaginação de quem o assiste e aceita, como um convite, a primeira fala do protagonista: “Se você não vir com seus próprios olhos, você não vai acreditar e imaginar o tamanho da dor”.

ROD ZEGWI DAN PIKAN e SILENT LIGHT também apostam na relação vertical entre som e imagem para extrapolar o que vemos e ouvimos. O primeiro nos apresenta o relato documental de uma mulher que, aos poucos, torna-se mais nítida nas imagens da composição. Já em SILENT LIGHT, o diretor propõe um jogo de temporalidades. Elabora um tempo único a partir das imagens do velório de sua avó e do relato dela sobre o impacto da morte de seu pai. O cineasta utiliza película vencida forjando uma inscrição do tempo na própria superfície da imagem, talvez numa aposta nos signos que compartilhamos sobre imagens da memória.

No jogo de imagens contemporâneas, compartilhamos não apenas sentidos, mas, literalmente, imagens como aquelas que compõem A PLACE I’VE NEVER BEEN. A noção abstrata segundo a qual ‘navegamos’ pelas imagens toma forma nesse filme e nos leva a um lugar virtual, acessível apenas pelo arranjo elaborado pelo autor, um ponto de vista onisciente que surge da junção de olhares múltiplos sobre um mesmo lugar. Mais do que um exercício técnico de fazer coincidir olhares distintos numa montagem eloquente, essa obra nos coloca diante da ecologia de imagens que nos circunda e que, quando sobrepostas, revelam que, apesar de múltiplas, nossas formas de ver o mundo são muito semelhantes. Esse experimento promove uma reflexão sobre certa programação em nosso olhar, tanto para enxergar o mundo, como para representá-lo e compartilhá-lo.

Outros filmes nessa mostra realizam exercícios semelhantes sobre registros e documentos históricos nos quais o caráter histórico e referencial é atualizado pelo ponto de vista dos autores. Em THEY CALL US THE ENEMY e I COMPAGNI SCONOSCIUTI, os arquivos utilizados abrem-se a outros sentidos pela imaginação dos autores.

Em I COMPAGNI SCONOSCIUTI, enxergamos o cotidiano de militares italianos internados em campos de trabalho nazistas durante a Segunda Guerra Mundial pelo olhar clandestino do fotógrafo Vittorio Vialli, que conseguiu esconder sua câmera dos guardas alemães. Esses registros são organizados numa composição sem texto ou narração, liberando-os de uma visada óbvia, moldam-se às associações do diretor e dos espectadores.

THEY CALL US THE ENEMY chama atenção pela estranheza de uma montagem rítmica sobre notas desconcertantes de piano. Como numa suíte, organiza fragmentos aparentemente isolados dos bastidores da Primeira Guerra Mundial. O movimento que falta às imagens é instaurado por uma montagem cadenciada e redundante que desvela os rastros da guerra sobre as imagens, sobre os lugares e sobre as pessoas retratadas numa experiência sensorial e simbólica.

Também a partir de imagens de arquivo, os três últimos filmes desvencilham suas imagens de seus referenciais históricos para misturar tempos, lugares, sujeitos e circunstâncias. Ainda que as imagens de arquivo funcionem como organizadoras das narrativas, dá-se a ver também um pensamento sobre as imagens, suas virtualidades e maleabilidade conforme as demandas comunicativas de cada trabalho.

TRANSMISSION FROM THE LIBERATED ZONES apresenta tanto uma versão dos fatos como um dispositivo que reativa as experiências dos personagens envolvidos. Formalmente, o efeito de feedback utilizado produz uma interseção visual em que os imaginários dos personagens, da realizadora e do espectador se fundem numa experiência fílmica de compartilhamento e transformação da visibilidade dessas imagens e documentos.

PETITES HISTOIRES DU MONDE AVANT D’ALLER DORMIR desvela a mão que constrói o filme como uma ‘carta aberta’ para a filha do diretor. Assim, tece uma rede de reflexões sobre o que é uma imagem e sobre como ela pode ser utilizada para dizer algo sobre o mundo. Um arranjo poético-filosófico sobre a potência das imagens e suas fabulações.

THIRD DAD surge como uma fusão poética de material de arquivo e imagens recentes produzidas pela diretora numa jornada em busca de uma memória inacessível. Nas imagens, ela busca encontrar seu pai enquanto presenciamos seu desaparecimento.

Nesse conjunto de filmes, as obras convocam nosso olhar sobretudo a partir da montagem, pois, suas imagens dizem algo ao serem organizadas em relação a outros elementos – outras imagens e temporalidades, outros textos e depoimentos. Os autores compõem experimentando, virando e revirando seus objetos-imagens, questionando-os e submetendo-os à reflexão. Cada obra surge então como um espaço topológico, que coloca em relação os conteúdos e imagens conforme a lógica associativa proposta pelos autores.

Os efeitos desses procedimentos são complexos, ambíguos e, em alguns casos, geram obras potentes, estética e criticamente, sem medo de fazer, enfim, obras de montagem, topologias imaginárias.

TOP 1 73’ |Cine Humberto Mauro

> 9, terça, 17h30

> 14, domingo, 17h30

 

TOP 2 70’

> 13, sábado, 17h30 – Cine Humberto Mauro

> 14, domingo, 19h – Juvenal Dias