ATR 1 – 74’ 16 ANOS

ATR 2 – 73’ 12 ANOS

 


 

Por Carla Italiano e Maria Ines Dieuzeide

 

Por sete anos consecutivos a mostra Movimentos de Mundo cumpriu importante papel na programação do festival. Pautada pelo signo da urgência, a mostra apresentava, ano após ano, um panorama de temáticas e eventos politicamente relevantes a nível mundial. Nesta edição, ao invés da ideia de movimentos de mundo, o conjunto de filmes nos sugeriu o gesto dos atravessamentos: forças que atravessam o quadro e produzem deslocamentos de imagens, de palavras e de tempos. São incidências sobre o campo do cinema que geram passagens para outras problemáticas: a guerra, a política, o corpo, a memória. Dividimos os filmes em dois grupos, nunca desarticulados entre si, mas compostos por traços e estratégias que constituem duas intenções distintas: as disputas do cotidiano e os percursos de memória.

O primeiro conjunto gravita em torno de questões diretamente envolvidas nos embates com o presente: desloca-se por eventos políticos midiatizados, paisagens sociais, pela vida como narrada e figurada na experiência do hoje. As imagens extravasam o contorno dos filmes para trazerem urgências ou elaborações para o cotidiano, como vemos em Green Screen Gringo. A tela verde levada a circular pelas cidades brasileiras insere outros quadros (velados ou revelados) dentro do quadro geral, sugerindo possibilidades de confronto ou deslocamento. A elaboração visual do encontro do estrangeiro com a rua, marcada pelo estranhamento, cria camadas de espaços e de figuras que questionam aquele momento em que o jogo da política institucional no Brasil explicitava seu lado mais farsesco e hipócrita.

Por outras vias, At least you are here também explora os quadros, usando a mediação da tela do computador para tentar aproximar espaços e experiências. Pelo skype ou pelo youtube, os conflitos na Ucrânia atravessam a tela e povoam outro cotidiano. Em Great muy bien, vislumbramos as relações políticas de Cuba plasmadas na vida ordinária, os arranjos políticos desdobrados nos sonhos. Ambos trabalham com conflitos e arranjos políticos do presente, mas apostam na mediação do idioma como possibilidade de encontro ou invenção.

Meryem nos faz saltar diretamente nos confrontos armados, um mergulho intenso no risco. Filmado na destruída cidade de Kobani, fronteira da Síria com a Turquia, o documentário nos apresenta Meryem, a mulher à frente do comando das unidades curdas na guerra contra o Estado Islâmico. Seu regimento é quase todo feminino, e o que vemos no campo (do cinema e da batalha) é uma força que arde, atravessa a guerra e sobrevive. Essa força também está presente em Las vísceras, ainda que de modo bem diverso: as imagens de um povoado são atravessadas pelo enigma que envolve o tempo das tradições. A narração da história de uma mulher com o coração devorado veste o cotidiano com roupagens fantásticas. Uma constelação de crianças orbita ao redor da avó. Essa mulher lidera um exército de fantasmas.

As imagens de Las visceras, carregadas de tempos passados, fazem a passagem para a segunda vertente da mostra: filmes que tematizam ou reconstroem processos de rememoração. A River Twice traduz o gesto de rememorar através de velejar, que pontua uma relação entre pai e filha, ambos de origem chinesa, reunidos na Austrália a propósito de um barco. A dissincronia entre o que vemos e a voz over do pai reforça a ideia de que diferentes camadas de tempo habitam o filme, processo semelhante ao de But elsewhere is always better. Quarenta anos de amizade condensados em quatro minutos, diz a sinopse desta elegia à cineasta Chantal Akerman. Os fragmentos mobilizados na montagem fazem referência não apenas à amiga que partiu, mas às cenas guardadas na memória, às cidades tornadas palco de filmes e encontros; Nova York, Paris, Tel Aviv. O título, retirado do livro Ma mère rit, de autoria de Chantal, remete inevitavelmente à sua morte, e àquilo que insiste em se apresentar como ausência no aqui e agora de uma vida.

Debris afasta-se de uma dimensão individual da memória, apostando em uma chave mais fragmentária ao lidar com imagens que se acercam do esquecimento. Em On Drawing, por outro lado, vemos desenhos que mediam a lembrança: a impossibilidade de ler e escrever para a imigrante marroquina Mina Pegourie transforma-se em ferramenta para o dia a dia e motivo de criação artística. O recorte de seu enquadramento rigoroso revela a criação de uma linguagem como artifício de memória, processo semelhante ao de Altas cidades de ossadas. O filme alia memória coletiva e história oral ao registrar o bairro português de Moinho das Rolas, que presenciou a demolição da antiga comunidade para a construção de conjuntos habitacionais. A principal dimensão de memória está na língua crioula, responsável pela permanência de raízes e possibilidade de reinvenção: é por meio dela que se afirma a descendência de Cabo Verde e um passado de migração nacional, e é através do rap do protagonista – da fala direta, entoada sem melodia – que as histórias de uma comunidade extinta podem novamente existir.

Depth of field compartilha com o curta anterior a busca pelas lembranças de um lugar, voltando-se para três assassinatos de imigrantes perpetrados em Nuremberg. A subversão formal surge quando o eixo da câmera é alterado pelo uso de tilts, criando “desenquadramentos” que perturbam a arquitetura aparentemente pacífica dos espaços. Ao resgatar essas mortes, as cineastas fazem o esforço de “escovar a história a contrapelo”[1], contornando o apagamento sistemático de suas existências.

As duas facetas da mostra derivam de inquietações sugeridas primordialmente pelos filmes. Eles dedicam-se a registrar (ou a rememorar) personagens e situações ao mesmo tempo em que refletem sobre questões propriamente formais de construção cinematográfica. As instâncias de “disputas do cotidiano” e “percursos de memória” possuem fronteiras porosas que suscitam interlocuções: o resgate ou invenção de uma língua torna-se ponto central de Great muy bien em Cuba, como para a imigrante marroquina de On Drawing e o rapper de Altas cidades de ossadas. Da mesma forma que o fazer artesanal e pessoal de But elsewhere is always better ecoa as conversas por skype da diretora de At least you are here. Seja no enfrentamento de um contexto que demanda reação imediata, como na Síria de Meryem ou na iminência do golpe político em Green Screen Gringo, seja no resgate de mortes que passariam despercebidas pela escrita da História em Depth of field, os curtas reunidos aqui criam modos particulares de lidar com seus objetos de investigação. E nos atravessam com camadas vivas de espaço e tempo, convidando a novas compreensões da experiência do ver/fazer cinema.

[1] “Teses sobre o conceito de história”. In: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222-232.