ENG 1 – 66’ 12 ANOS

ENG 2 – 62’ 16 ANOS

 


 

Mostra paralela – Engajamentos contemporâneos

Festcurtas

Por Mariana Souto e Vinícius Andrade

 

A mostra paralela Engajamentos contemporâneos reúne filmes que estão fortemente situados no terreno das relações de opressão e poder, tateando na linguagem cinematográfica para erigir formas que possibilitem lidar com sentimentos de injustiça, revolta e indignação diante das desigualdades do mundo contemporâneo. Os gestos estilísticos são os mais diversos: alguns se ancoram na narrativa clássica, uns experimentam com formatos singulares, outros ainda flertam com o registro televisivo documental ou melodramático.

O programa Territórios – espaços políticos reúne documentários assentados, material ou simbolicamente, em ambientes sociais nos quais as relações históricas de poder, dominação e resistência aparecem como decisivas. Heterogêneos entre si desde o espaço onde se inscrevem, mas revelando procedimentos narrativos igualmente variados, parecem devotar-se a um trabalho de reelaboração do sentido atribuído a determinado território e às relações nele travadas, operando assim para liberá-lo, ao menos na instância provisória das imagens, em favor de outros sujeitos e práticas.

ExPerimetral investe numa montagem que busca associar criticamente a conferência do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, num encontro global sobre o futuro das cidades, a imagens da demolição do Elevado da Perimetral, na Zona Portuária da cidade. O discurso cínico distribuído pela banda sonora adquire presença nas imagens como força que produz a cidade em escombros, operação que, combinada a outras intervenções sonoras, conjuga no filme um tempo futuro sob a chave da distopia.

O foco em Terminal 3, embora também vinculado às recentes obras que afetaram a paisagem urbana e social do país, recai sobre outro tema: o crime de trabalho análogo ao escravo cometido pela construtora OAS contra trabalhadores nordestinos na reforma do Aeroporto de Guarulhos, em 2014. Sensível a uma das estratégias mais perversas do capitalismo financeirizado, a precarização do trabalho e das condições de vida do trabalhador, o documentário volta sua escuta a esses personagens, abrindo-se à consciência que demonstram para assinalar essa situação como sintoma de um problema sistêmico.

Em busca da terra sem males nos desloca para as margens da cidade do Rio de Janeiro, na trilha de terras ocupadas por indígenas da etnia Guarani. A partir de um estilo observativo, atento, sobretudo, às pequenas ações, o filme converte um cotidiano atravessado pela ameaça constante de remoção numa mise-en-scène composta por alguns belos e fortes momentos. Obra autorizada, por sua vez, encontra lugar numa situação a princípio banal aos olhos dos moradores de uma cidade histórica – um prédio antigo prestes a desabar –, para uma reflexão singela e potente sobre nossa relação diária com o espaço que nos cerca e as camadas de história que é capaz de revelar.

Agrupados na sessão Mulher – corpo político, uma variedade de curtas se debruçam sobre questões relativas às vivências das mulheres, fazendo emergir a semelhança de algumas experiências – e medos – que surgem, tanto no Brasil como em países como França e Estados Unidos. Divina Luz, documentário sobre Luz del Fuego, figura de vanguarda não somente em relação ao seu tempo, mas que possivelmente continuaria à nossa frente, apresenta essa personagem fundamental de nossa história – atriz, bailarina, naturista (“gosto de viver nua de preconceitos, despida de ilusões”). Sua estética, ao mesmo tempo em que emula os antigos cine-jornais, com preciosas imagens de arquivo, adere ao gesto pop da colagem, resultando em uma comunicação ágil e certeira com as gerações que talvez ainda precisem descobri-la.

Também investindo numa experimentação estética (aqui com projeções de imagens sobre corpos) e tecendo pontes com o feminismo do passado (acionando Panteras negras, filme de 1968, de Agnès Varda), Cabelo bom se situa no presente para abordar questões raciais, especialmente focadas numa parte do corpo que evoca temas como a autoestima da mulher negra, racismo, estilo, afirmação: o cabelo. “Meu corpo negro é um corpo político”, dizem as entrevistadas, que apontam a potência do uso da estética para a militância, intercaladas com imagens de outras mulheres que se apresentam em retratos fortes e impávidos diante da câmera. Crystal Lake, também evocando a interseccionalidade entre gênero e raça, retrata o universo de meninas negras muçulmanas nos EUA, em um filme de narrativa ficcional concentrado em desenvolver uma densa dramaturgia e construção de personagens, com ênfase numa história tocante sobre sororidade.

 Já o francês Elle et la poule, partindo de uma premissa simples, com poucos recursos e pequena duração, desvela os absurdos cotidianos vividos pelas mulheres, a partir da irônica frase, que recebe complementos variados, “eu não tenho medo de…”. Uma performance frontal à câmera, com alguma experimentação na montagem, conduz uma reflexão sobre abusos sexuais e violência contra a mulher. Também lançando mão da performance de uma atriz, mas agora em meio a uma montagem de arquivos da mídia, Autópsia constrói um discurso que evidencia – com insistência – a cultura do estupro e o lugar reservado à mulher no imaginário da cultura popular brasileira, da televisão à música (“mulher indigesta merece um tijolo na testa”).

Se os filmes aqui reunidos, seja no modo como figuram as mulheres ou tomam parte nas lutas feministas, seja da perspectiva das relações entre espaço e política, não necessariamente engendram em suas escrituras uma temporalidade da urgência, nos obrigam a sinalizar, porém, a premência das questões que ensejam e sua importância no atual momento histórico. Incontornáveis, essas questões ganham aqui aproximações que nos permitem um vislumbre acerca das recentes investidas do cinema no sentido de repercutir e intervir nos problemas sociais.